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Dieta Low-Carb e o Relatório sobre a Obesidade do Reino Unido

O relatório quer que o governo Inglês mude radicalmente suas diretrizes alimentares; o conteúdo tem tudo a ver com o que tenho passado aos meus pacientes

Muito provavelmente você não tenha ficado sabendo, mas a população do Reino Unido ficou recentemente em polvorosa. O motivo? Uma organização sem fins lucrativos chamada Fórum Nacional da Obesidade, juntamente com outra organização análoga chamada Colaboração para a Saúde Pública, publicaram um relatório que pede que o governo Inglês mude

Eu li o relatório e ele aborda, basicamente, muito do que eu já tenho falado para vocês. O conteúdo é muito bom, e eu resolvi comparilhar o texto. A leitura é um pouco extensa, mas muito necessária, e eu recomendo.

 

Introdução

Depois de 250 mil anos de evolução, nós humanos nos tornamos uma espécie saudável e com longa expectativa de vida. Porém, nos últimos 30 anos, as coisas mudaram, sofremos agora com epidemias de obesidade e diabetes tipo 2, intocadas pelas políticas vigentes, e que provavelmente irão reduzir a expectativa de vida das pessoas e quebrar os sistemas de saúde. Perceba que a situação vivida no Reino Unido, não é muito diferente da realidade que encontramos aqui no Brasil!

Solucionar a epidemia de obesidade e suas consequências adversas para a saúde, tais como o diabetes tipo 2, é o desafio mais importante que a saúde pública precisa enfrentar atualmente. Como você já sabe, as raízes da obesidade e do diabetes tipo 2 estão fortemente relacionadas com a alimentação. É preciso ter esforços legislativos para encorajar um menor consumo de alimentos processados e de bebidas açucaradas, só assim conseguiremos reduzir significativamente as doenças relacionadas à dieta, que hoje contribuem com mais mortes do que o sedentarismo, o cigarro e o álcool combinados (2). A verdade é que o papel das diretrizes alimentares ruins tem sido ignorado por tempo demais! Especificamente, a mensagem dada a população de que devemos consumir alimentos de "baixa gordura" e "baixo colesterol" teve consequências simplesmente desastrosas para a saúde.

A má ciência por detrás desta mensagem e as mudanças feitas nas diretrizes alimentares introduzidas para os americanos em 1977 (3), seguida pelas diretrizes do Reino Unido em 1983 (4) e também aqui no Brasil, resultaram em aumento do consumo de comida-lixo, carboidratos refinados e óleos vegetais poli-insaturados. Nos Estados Unidos, entre 1961 e 2011, 90% do aumento da ingestão calórica veio de carboidratos e óleos vegetais poli-insaturados (5). É muita coisa!

A ciência da nutrição foi originalmente baseada em estudos humanos observacionais, os quais são frequentemente repletos de problemas, mas a ciência também foi corrompida por influências comerciais e interferência indevida da indústria alimentícia, que é uma ameaça significativa à saúde pública.

Foi preciso 50 anos desde a primeira evidência científica publicada ligando o tabagismo ao câncer de pulmão até que medidas efetivas fossem tomadas a a fim de minimizar o consumo do tabaco. Para revidar, as grandes companhias de cigarro adotaram uma estratégia de negação, plantando a dúvida, confundindo e até mesmo comprando a lealdade dos cientistas. Quando comparamos, as semelhanças recentes com a atuação da indústria alimentícia são assustadoras (6).

Nós compreendemos que os membros da indústria alimentícia têm a responsabilidade de produzir lucros para seus acionistas. Mas o maior problema, é que acadêmicos, instituições e periódicos científicos, cuja responsabilidade principal é com os pacientes e com a integridade científica, tenham muitas vezes conspirado com a indústria buscando ganhos financeiros.

O mais recente guia Eatwell ("Coma Bem") da Public Health England é, talvez, um exemplo de interesses comerciais passando por cima de pesquisas científicas independentes. A maior parte estabelecida pela Public Health England como modelo de alimentação saudável para o país representa a indústria alimentícia e de bebidas. Será que a Federação de Alimentos e Bebidas deveria estar entre aqueles que desenharam as diretrizes alimentícias da Inglaterra, ou será que cientistas independentes é que deveriam preencher este papel?

O absurdo é tão grande que há uma sugestão de consumo de 22 colheres de chá de açúcar por dia (7). Mas que fique claro, não existe NENHUMA necessidade dietética ou biológica de qualquer quantidade de açúcar adicionado em uma dieta saudável.

Foi a fim de corrigir estes erros, o fórum Nacional da Obesidade e o Public Health Collaboration, baseados nas mais atualizados evidências científicas e clínicas, recomendaram uma completa revisão das diretrizes nutricionais e de saúde pública. As mudanças mais efetivas e importantes são resumidas a seguir.

 

1) Comer gordura não engorda.

Evidências de vários estudos têm revelado que uma dieta com mais gorduras e menos carboidratos é melhor que uma dieta de baixa gordura para perda de peso e redução de risco cardiovascular (8, 9). Uma análise clínica envolvendo 68.128 participantes, conduzida pela escola de saúde pública de Harvard, chegou à conclusão que "quando comparada com intervenções dietéticas de intensidade similar, a evidência de ensaios clínicos não dá suporte às dietas de baixa gordura, em relação a outras intervenções dietéticas, para perda de peso no longo prazo. Em ensaios clínicos de perda de peso, intervenções com mais gordura levaram a perdas de peso mais significativas do que as com menos gordura".

Além disso, o Women's Health Initiative (Iniciativa para a Saúde da Mulher), foi o maior ensaio clínico de dieta jamais feito. 48.835 mulheres pós-menopausa praticavam uma dieta usual ou uma dieta de baixa gordura, reduzida em calorias e com aumento de exercícios, esperando reduzir os riscos de doenças cardiovasculares. A intervenção atingiu uma redução absoluta de 8,2% na gordura total e 2,9% na gordura saturada, mas não reduziu o risco de doença coronariana ou derrame (10). Embora não fosse especificamente um estudo de perda de peso, a redução da gordura e das calorias (361 calorias a menos por dia) falhou em produzir qualquer perda significativa de peso na duração do estudo. Isto mostra como sendo errada a noção de que uma dieta de baixa gordura seja benéfica, tanto para o sistema cardiovascular, como para perda de peso.

Lembre-se de que o consumo de gordura induz à saciedade e à sensação de “estômago cheio” e, quando comparada aos demais macronutrientes - proteínas e carboidratos - a gordura têm o menor impacto na glicemia e insulina. Além do mais, a resistência à insulina é um precursor do diabetes tipo 2 e, em homens, este é o fator de risco número um para ataques cardíacos.

A recomendação do relatório é a mesma que eu dou aos meus pacientes: incluir um consumo à vontade de carboidratos não-refinados e uma dieta rica em gorduras saudáveis (isto é, "comida de verdade") como uma abordagem para prevenir e perder peso.

 

2) Gorduras saturadas não causam doença cardíaca.

A pressa em condenar a gordura saturada como vilã foi prematura. Novas pesquisas mostraram que os estudos disponíveis já não davam suporte à introdução da restrição da gordura na dieta (11).

Este erro não foi corrigido até 2014, mais de três décadas depois, quando uma revisão sistemática de 76 estudos com mais de 600 mil participantes de 18 países concluiu que "as evidências atuais não dão suporte claro às diretrizes cardiovasculares que encorajam o alto consumo de ácidos graxos poli-insaturados e o baixo consumo de gorduras saturadas e totais" (12). A verdade é que não encontraram relação entre o consumo de gordura com doenças cardiovasculares, AVC isquêmico ou diabetes tipo 2 (13).

Gorduras saturadas elevam o HDL (o "bom" colesterol), melhora o tamanho das partículas de LDL, baixa os níveis de triglicérides e de açúcar no sangue. Ou seja, para a maioria das pessoas, comer razoáveis quantidades de gordura saturada é perfeitamente seguro e totalmente saudável. 

As diretrizes nutricionais vigentes focam-se, erroneamente, no conteúdo de gordura total e saturada, ao invés de focar-se em alimentares específicos e nos subtipos de gorduras que eles contêm. Em particular, o consumo de ácido margárico, prevalente em laticínios não desnatados, reduz significativamente o risco de doenças cardiovasculares. Dietas com queijos e carnes como fontes primárias de ácidos graxos saturados levam a níveis maiores de HDL e de Apo-A1 e, portanto, parecem ser menos prejudiciais do que uma dieta de baixa gordura e alto carboidrato. (14) Laticínios integrais também podem proteger contra a obesidade. Um estudo de 2014 concluiu: "participantes no maior tercil de laticínios não desnatados (queijo, iogurte) tiveram chance significativamente menor de se tornarem obesos" (15).

Os níveis séricos dos ácidos graxos saturados oriundos do consumo de laticínios, tais como queijos e iogurtes, são inversamente relacionados à incidência de diabetes tipo 2. Em contraste, os níveis séricos do ácido palmítico, relacionado ao consumo de amido, açúcar e álcool, estão fortemente associados ao desenvolvimento de diabetes tipo 2 (16).

Os alimentos mais naturais e nutritivos disponíveis - carnes, peixes, ovos, nozes, sementes, azeitonas, abacates - todos contêm gorduras saturadas. Estes alimentos naturais fazem parte da dieta humana desde os tempos paleolíticos, e têm sido consumidos pelos nossos ancestrais sem consequências adversas para saúde humana por milênios. A demonização de gorduras naturais afasta as pessoas de alimentos altamente nutritivos, integrais e promotores da saúde.

 

3) Alimentos "light", "baixo colesterol" ou "comprovadamente reduz o seu colesterol" devem ser evitados.

Não existem quaisquer evidências que demonstrem que reduzir a gordura saturada da dieta reduza os problemas cardiovasculares e mortes. Ao contrário, as melhoras cardiovasculares são independentes da redução do colesterol pela dieta. Ensaios clínicos de dieta que forneceram gorduras naturais abundantes, tais como ácidos alfa-linoleico, polifenóis e ácidos graxos ômega 3, encontrados em nozes, azeite de oliva, peixes gordurosos e vegetais, fazem bem para a saúde (17). Incluindo a redução da inflamação, da aterosclerose e da trombose. Substituir gordura saturada por óleos vegetais contendo ômega 6 reduz o colesterol, NÃO melhora a mortalidade cardiovascular (18). Ao contrário, estudos revelaram uma tendência no sentido de aumento da mortalidade.

Os profissionais de saúde e o público precisam deixar de se focar tanto no LDL como marcador de saúde cardiovascular. As evidências mostram claramente que um perfil lipídico caracterizado por triglicerídeos altos e HDL baixo possui mais risco cardíaco, e aumenta a resistência à insulina. Um modelo matemático revelou que prevenir a resistência à insulina em homens jovens evitaria 42% dos infartos do miocárdio, uma redução maior do que a obtida com a correção da hipertensão (36%), do HDL baixo (31%), do índice de massa corporal elevado (21%) ou dos níveis de LDL (16%) (19). A calculadora de risco QRISK, usada por médicos para estimar o risco de doença cardiovascular nos próximos 10 anos, sequer faz uso dos valores de LDL, e sim da relação colesterol total / HDL.

Os processos através dos quais os "alimentos redutores de colesterol" atuam levantam sérias preocupações com a doença cardíaca coronariana: "... não há evidência de que os esteróis das plantas reduzam o risco de doença cardiovascular, e há várias evidências de que prejudiquem". (20).

Bom, a verdade é que os alimentos light ou diet “lentificam” o seu metabolismo e fazem você desejar comer doces e massas, e isso engorda. A dica é evitar a todo custo alimentos industrializdos, mesmo que no rótulo eles pareçam saudáveis!

 

4. Limite os carboidratos refinados e o amido.

Diabetes tipo 2 é uma doença de resistência excessiva à insulina, que se manifesta através de níveis elevados de glicose no sangue. Pacientes nessas condições demonstram profunda intolerância aos carboidratos, e as mensagens de saúde pública deveriam refletir isto. Sabemos que carboidratos refinados e amido aumentam os níveis de glicose no sangue, aumentando também a medicação e o ganho de peso. É, portanto, muito perturbador que qualquer setor da saúde dê prioridade ao consumo de carboidratos e amidos para portadores de diabetes tipo 2. Tais dietas irão levar, muito provavelmente, à piora da doença e a todas as suas complicações, tais como cegueira, insuficiência renal, neuropatia, doença vascular periférica, doença cardíaca e derrame.

Uma pesquisa recente concluiu que a restrição de carboidratos é “a intervenção isolada mais eficiente para reduzir todos os aspectos da síndrome metabólica”, e deveria ser a primeira abordagem no manejo do diabetes. Uma dieta cetogênica (aquela na qual menos de 10% das calorias são oriundas de carboidratos) resulta na maior queda da hemoglobina glicada, e em redução do uso de medicamentos; seus benefícios são vistos mesmo na ausência de perda de peso (21). É impressionante os benefícios obtidos quando seguimos uma dieta de baixo carboidrato e com mais gordura aos pacientes.

 

5. A quantidade ideal de Açúcar para a saúde é zero.

O açúcar adicionado aos alimentos não tem absolutamente nenhum valor nutricional! Não existe uma única reação bioquímica do corpo humano que precise dele na dieta. Não existe um único estudo que demonstre benefícios associados com seu consumo (23). O consumo excessivo de açúcar é fortemente associado com o aumento do risco de diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares, independentemente das calorias ou de seu efeito sobre o peso corporal (24, 25, 26). A saúde pública deveria enfatizar o fato de que açúcar não tem NENHUM papel em uma dieta saudável. É algo que devemos consumir ocasionalmente (se possível, nem consumir), ao invés de fazer parte da nossa dieta diária.

A recomendação é de que o rótulo dos alimentos destaque a quantidade de açúcar adicionado, e que expresse esse valor em colheres de chá. Isso permitirá aos consumidores tomar decisões melhor informadas ao comprar produtos no supermercado. Fique atento e procure sempre se informar!

 

6. Óleos vegetais industrializados devem ser evitados.

Por 2,4 milhões de anos da história humana, óleos vegetais puros extraídos de sementes não fizeram parte da dieta. O ácido linoleico (a gordura ômega 6 destes óleos) é extremamente suscetível à oxidação, tornando os alimentos rançosos, e também oxidando dentro do corpo (27, 28). Na natureza, o ácido linoleico existe em alimentos integrais, tais como sementes, nozes, peixes e ovos, que também contêm vitaminas, minerais e antioxidantes que protegem esta gordura poli-insaturada altamente suscetível.

Dados recentes sugerem que nós deveríamos remover estes óleos vegetais de nossa alimentação para melhorar nossa saúde. Uma análise incluindo quase 10 mil pacientes confirmou que uma ingestão alta de óleos ômega 6 (oriundos de sementes ou de margarinas) aumenta o risco de morte e o risco de doença cardíaca quando comparado a gorduras saturadas e gorduras trans (29). Os dados de estudos mais antigos não demonstravam isso de forma tão clara, pois o consumo de ômega 3 era computado juntamente com consumo de ômega 6, o que dava uma falsa impressão de benefícios do ômega 6 para a saúde. Outros estudos, confirmam que os ácidos graxos poliinsaturados ômega 6 aumentam o risco de morte quando comparados com a gordura animal (30).

Numerosos estudos em animais demonstraram que a gordura poli-insaturada ômega 6 promove o crescimento de tumores induzidos experimentalmente, enquanto o omega 3 inibe tal crescimento. Os óleos vegetais ricos em ômega 6 (tais como girassol e milho), ligados a um risco aumentado de morte, doença coronariana e câncer em humanos (32), assim como ao crescimento de tumores em modelos animais (33), não podem ser considerados seguros. Na verdade, mal podem ser considerados comida. Por isso que eu sempre digo, prefira comida de verdade!

 

7. Não conte calorias.

As calorias só são iguais quando são incineradas e o calor liberado é medido, essa é a definição de caloria. Entretanto, calorias de alimentos diferentes têm efeitos metabólicos completamente diferentes no nosso corpo, tornando esta definição inútil. O efeito de uma caloria na nossa saúde depende de onde foi derivada. Por exemplo, porções com a mesma quantidade de calorias de açúcar, álcool, carne ou azeite de oliva têm efeitos completamente diferentes em sistemas hormonais tais como a insulina, e em sinais de saciedade tais como colecistoquinina e o peptídeo YY. Por isso, é desnecessário saber quantas calorias uma porção de comida ou um prato contém. O que importa é como o nosso corpo responde a ingestão e absorção dessas calorias, e como elas serão metabolizadas, dependendo do alimento em questão. Mais do que quantidade (contar caloria), prefira qualidade (alimento de verdade).

As atuais estratégias de redução calórica para perda de peso são altamente ineficazes. Dados do Reino Unido, de 2004 a 2014, estimam que a probabilidade de obter um peso normal com restrição calórica é de 1 em 167 (34). Isso equivale a uma taxa de insucesso superior a 99%. Podemos confirmar isso com as pessoas que experimentam dietas, a maioria das quais baseadas em restrição calórica.

A mesma caloria de comida pode ser utilizada para gerar calor corporal, ou ser armazenada como gordura. A obesidade é uma doença de particionamento energético, e não de consumo energético total. O principal determinante em questão é a insulina.

O pensamento focado em calorias apresenta necessariamente um viés contra alimentos contendo gordura, muitos dos quais podem ser protetores contra a obesidade e doenças relacionadas, e tende a dar suporte a substitutos contendo amido e açúcar, os quais são particularmente ruins para pessoas com resistência à insulina.

Desviar o foco das calorias e preferir dietas que foquem na qualidade dos alimentos ao invés da quantidade ajuda a reduzir a obesidade, as doenças relacionadas, e o risco cardiovascular (35). A perda rápida de peso após dietas da moda não é bom para saúde; este efeito sanfona contribui para hipertensão, resistência insulina e dislipidemia, resultando em risco aumentado de mortalidade e em desfechos cardiovasculares piores (36).

A saúde pública deve divulgar o consumo de alimentos de verdade, que ajudam a proteger contra o desequilíbrio energético que leva à obesidade e disfunção metabólica, ao invés de continuar a promover mensagens baseadas em calorias, que podem criar (e depois culpar) vítimas, além de piorar  aepidemia de obesidade e doenças relacionadas.

 

8. Não dá para consertar uma dieta ruim com exercício.

É muito comum o pensamento de que consumir mais calorias do que nós queimamos é a causa da epidemia de obesidade e, assim, a solução é fazer mais exercício. Mas isso não está certo! A obesidade é um transtorno hormonal, levando a um particionamento anormal da energia, que não pode, portanto, ser solucionado apenas aumentando o exercício.

Por muitos anos, as indústrias fabricantes de bebidas e alimentos têm salientado a mensagem da atividade física a fim de negar sua própria responsabilidade sobre a epidemia de obesidade. De fato, companhias que promovem alimentos processados e refinados, que causam obesidade, têm patrocinado os maiores eventos esportivos ( como as Olimpíadas). Atividade física regular, sem dúvida, tem vários efeitos benéficos para a saúde, mas a perda de peso não é um deles. (38). Resumindo, os benefícios do exercício são muitos, mas se você precisa exercitar-se para manter o peso, sua dieta está errada.

Você não vai ficar bem comendo junk food, mesmo que você pratique esportes (39).

 

9. Comer com muita frequência engorda.

Houve duas grandes mudanças nos hábitos alimentares desde os anos 70, antes do início da epidemia de obesidade. A mudança para uma dieta de alto carboidrato e baixa gordura foi bem documentada, e teve um importante papel em causar obesidade. A outra mudança, o aumento na frequência da alimentação, tem um papel igual, senão maior, e tem sido negligenciada. Nos anos 70, o número médio de refeições ao dia era três: café da manhã, almoço e janta. Em 2005, o número praticamente dobrou (40). Agora, nós comemos café da manhã, lanche, almoço, lanche, janta e mais lanche. E cada uma dessas refeições contém uma quantia preocupante de carboidratos refinados.

Comer sem parar, desde o momento em que acordamos até o momento que vamos dormir, não deixa o nosso corpo digerir e usar os alimentos que consumimos. O dia inteiro torna-se uma oportunidade para armazenar a energia dos alimentos, sem chance de queimá-las. Que fique claro, comer 6 vezes por dia não resulta em perda de peso (41)!

Os lanches tendem a ser altamente insulinogênicos (engordantes), uma vez que nós buscamos comodidade e praticidade, características dos carboidratos refinados. É simples comer alguns biscoitos como lanche, mas não um pequeno pedaço de salmão grelhado, não é verdade? Essa busca pelo fácil também é prejudicial a nossa saúde.

Nós precisamos equilibrar o tempo que nós gastamos comendo e o tempo que nós gastamos não comendo, ou jejuando. A própria palavra café da manhã em inglês (breakfast = “break fast” = “quebrar jejum”), significa que nós precisamos passar alguma parte do dia jejuando, mesmo que seja apenas 12 a 14 horas, a maior parte da qual passamos dormindo. Eliminar lanches, especialmente após a janta, e adicionar novamente períodos de jejum, são ideias simples, que já eram largamente praticadas antes da instalação da epidemia de obesidade. Isto não é uma coincidência!

 

10. A nutrição baseada em evidências deve fazer parte dos currículos educacionais.

É necessário que os currículos de graduação e pós-graduação, bem como o da educação médica, incorporem a nutrição baseada em evidências atualizadas. Uma pesquisa global desenvolvida pelo banco de investimentos Credit Suisse preocupantemente revelou o nível de desinformação que existe entre os médicos, com 92% acreditando que comer gordura provoca problemas cardiovasculares e 87% acreditando que levará ao ganho de peso - com resultados semelhantes para nutricionistas. Incorretamente, 54% dos médicos e 40% dos nutricionistas pensam que comer alimentos ricos em colesterol aumenta os níveis sanguíneos de colesterol. O mais “chocante” neste relatório foi que 83% dos médicos acredita que a manteiga é pior do que a margarina, e 66% acreditam que óleos vegetais são benéficos para saúde (42).

Isso não diz respeito apenas a prevenção de doenças, mas envolve intervenções nutricionais voltadas a eliminação das causas das doenças crônicas, não se limitando apenas a tratar os sintomas e os fatores de risco com medicamentos. O fato de que medicações prescritas são atualmente a terceira maior causa de mortes no mundo todo, depois de doença cardíaca e câncer, deve servir de alerta de que mudanças de estilo de vida baseadas em evidências para tratar as doenças são uma alternativa aos tratamentos medicamentosos e seus efeitos colaterais. Eu apoio a Academy of Medical Royal Colleges e o British Medical Journal que, conjuntamente, oferecem um plano para reduzir os danos do "excesso de medicações", como parte da campanha Choosing Wisely ("escolhendo com sabedoria"): uma das suas recomendações encoraja a educação do público para que questionem os profissionais médicos sobre opções mais seguras à medicação prescrita (43). Não me canso de repetir, procure informações!

Para quem se interessou por este documento, a Public Health Collaboration (PHC) também escreveu um relatório mais longo sobre diretrizes de alimentação saudável e perda de peso para o Reino Unido. Este relatório pode ser baixado do site da PHC em https://www.PHCuk.org/healthy-eating-guidelines-weight-loss-advice-for-the-uk/ onde você também achará mais informações.

Cuide da sua saúde e procure sempre orientação médica.

Fique com Deus!

Autor(es):
Dr. Juliano Pimentel

 

Fonte(s):
1. Hex N, Bartlett C, Wright D, et al. Estimating the current and future costs of Type 1 and Type 2 diabetes in the United Kingdom, including direct health costs and indirect societal and productivity costs. Diabetic Medicine 2012;29:855–62.
2. Newton JN, Briggs AD, Murray CJ, Dicker D, Foreman KJ, Wang H, et al. Changes in health in England, with analysis by English regions and areas of deprivation, 1990–2013: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2013. Lancet. 2015. doi:10.1016/S0140-6736(15)00195-6.
3. Select Committee on Nutrition and Human Needs. Dietary goals for the United States. First ed. Washington: U.S. Govt. Print. Off., February 1977.
4. National Advisory Committee on Nutritional Education (NACNE). A discussion paper on proposals for nutritional guidelines for health education in Britain, 1983.

Fontes:

1. Hex N, Bartlett C, Wright D, et al. Estimating the current and future costs of Type 1 and Type 2 diabetes in the United Kingdom, including direct health costs and indirect societal and productivity costs. Diabetic Medicine 2012;29:855–62.
2. Newton JN, Briggs AD, Murray CJ, Dicker D, Foreman KJ, Wang H, et al. Changes in health in England, with analysis by English regions and areas of deprivation, 1990–2013: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2013. Lancet. 2015. doi:10.1016/S0140-6736(15)00195-6.
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